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Julia Sabugosa, os enredos que construíram sua carreira e paixões

Entrevista por Lia Santos

Decidir uma carreira para a vida toda! Esta ideia tem mudado muito, não é mais como antigamente.

As oportunidades e liberdade para se fazer o que deseja, vem motivando muitos profissionais a migrarem de carreira, experimentarem o novo, se aventurar na vida profissional.

A entrevista de hoje é com a fotógrafa e atriz Julia Sabugosa.

Ela iniciou sua trajetória pelos palcos no Tablado em 1993, aos 16 anos. Atuou em trabalhos como na novela Bang Bang, Cilada, Poder Paralelo. Já morou em Portugal, Austrália, EUA, mora em Wellington, na Nova Zelândia desde 2019.

Julia tem uma empresa de fotografia na Nova Zelândia chamada Ana Studio NZ e nesta matéria ela nos leva aos enredos que construíram sua carreira e suas paixões. Conta também sobre sua participação em uma nova série de TV.

Julia, nos conta de onde você é no Brasil, fala um pouco sobre sua família.

“Sou filha de uma empresária da música e um advogado apaixonado por cinema, música e fotografia.

Minha mãe nasceu em uma família classe média baixa, era filha de um pai opressor e uma talentosa dona de casa. Minha mãe era uma mulher muito forte, honesta, criativa e cheia de sonhos. Se tornou uma reconhecida empresária do ramo da música por mérito próprio.

Durante quase 15 anos foi empresária da cantora Fafá de Belém. Numa época em que empresários não só vendiam o show, mas divulgavam o artista, participavam da produção dos discos, acompanhavam o artista nas turnês, nos programas de TV, rádio.. Ufa! Era uma agenda tão intensa, que pouco espaço sobrava para uma vida em família.

Minha mãe faleceu há 13 anos em decorrência de um câncer de pulmão. Foi tudo muito rápido. Uma semana de hospital, até que a notícia de sua morte. Ela se mantém ainda muito presente na minha vida.”

Homenagem

“O nome do meu estúdio é Ana Studio NZ não exatamente por ser o nome da minha mãe, mas porque meu estúdio, antes da obra para transformá-lo em estúdio, parecia uma caverna. Eu queria dar um nome Maori pro estúdio então, quando fui procurar a tradução do nome caverna para a língua Maori, surgiu o nome Ana. Sabia naquele momento de que eu estava no caminho certo!”

Ana, a mãe de Julia Sabugosa, com Fafá de Belém, Beth Mendes e lá atrás, passando distraidamente, Mario lago. Estão no backstage das Diretas Já!

Família de “veia artística”

“Tenho um irmão gêmeo e uma irmã dois anos mais velha que a gente. Assim como eu, meus irmãos também são artistas. Meu gêmeo, Felipe Sabugosa, é roteirista talentosíssimo e minha irmã, Lia Sabugosa é uma cantora maravilhosa. Lia também ama fotografar (é um talento nato!), e Felipe trabalhou durante anos em Portugal e no Brasil como diretor de fotografia, além de ter uma banda de rock, chamada Anda Guedes, onde compõe, toca guitarra, canta e cria os clipes.

“Sempre tivemos o apoio e incentivo dos nossos pais para que seguíssemos a arte como fonte de alimento. E assim temos nos mantido.”

Durante 8 anos comandei com meus irmãos nossa produtora de vídeo, chamada Visconde Produções.

Assumimos o bullying e acolhemos o Visconde Sabugosa como deve ser (risos). A produtora ainda se mantém ativa, atendendo clientes com a multinacional GlaxoSmithKline e diversos outros nichos.

Eu que tive que me retirar da empresa depois que me mudei para a Austrália em 2016, e realizei que o fuso de 14h não seria condizente para atender dignamente meus clientes.”

Nos fale sobre sua formação no Brasil e o que te influenciou na vida artística.

“Aos 12 anos minha mãe me levou para assistir uma peça de teatro onde em cena estavam Irene Ravache e Regina Braga. Uma Relação Tão Delicada, era a peça. Fiquei apaixonada pelas duas em cena e decidi que iria estudar teatro.

Bang-Bang em cena com Bruno Garcia (irmão da Julia em cena).

Três anos depois consegui uma vaga na concorrida escola de teatro Tablado. Estudei por dois anos com Luiz Octávio e Isabella Secchin – que anos mais tarde iria me dirigir com o Ricardo Waddington na novela da Globo, Bang-Bang. Depois me formei em arte cênicas pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e anos depois pela extinta Faculdade da Cidade. Fiz outras dezenas de cursos livres, de TV e teatro.

Sempre tive o apoio, principalmente, da minha mãe. Apesar da minha admiração por fotografia ter sido sempre presente, só entrou profissionalmente na minha vida, mais tarde.”

Existe algum momento em sua carreira como atriz que te marcou muito?

“Muitos! Tenho boas, e outras nem tão boas, lembranças.

Como grande parte das profissões, viver de atuação no Brasil, não é das coisas mais fáceis. O ator é muito estigmatizado. Nessa época em que vivemos, mais ainda. É, no mínimo, curioso assistir a negação sobre a importância da arte em geral. Todos consumimos arte diariamente, seja na TV, no rádio, nas ruas, na internet, no cinema.. e mesmo, apesar dê, ela vem sendo cada dia mais desvalorizada. Enfim.”

Desafios da vida artística

“Voltando `a sua pergunta: pra conquistar o pouco que somei nos 20 anos de atuação, ouvi muito absurdo, como em uma cena gravada na Globo, onde o diretor (um dos grandes da emissora), durante a marcação da cena pede pra eu andar pra trás até tal ponto do cenário. Eu achei a marcação sem sentido, então, com o intuito de criar verdade ao meu personagem e entender a ação proposta, perguntei o porquê ele queria que eu andasse para trás, ele disse: “porque tô pagando”.

Respirei fundo e disse, com bastante calma: “a personagem está perguntando o porquê ela deve andar para trás”. Ele então me ofereceu a resposta que eu procurava.”

Trabalho com emoção

“Também tenho ótimas lembranças, como uma cena que gravei na novela da Globo, Bang-Bang, com os maravilhosos Mauro Mendonça e Giulia Gam, com direção do José Villamarim. Era uma cena bem dramática e tensa. Gravamos a cena de uma tacada só. Me lembro que saí do estúdio e Giulia Gam, disse: “foi a melhor cena que gravei nessa novela”. Realmente parecia cena realizada em um palco e não em um set. Foi emocionante.”

O portfolio da Julia Sabugosa está neste link.

Novidade: Gravação em nova série de TV

“Tenho ótimas lembranças das cenas com o Nicola Siri, Poder Paralelo, da Record. Aprendi muito com ele em cena. Sou muito grata `a ele. Atuaremos novamente juntos esse ano, só que agora `a distância. Faremos parte do elenco de uma série de TV chamada Ameaça Invisível. O texto da genial Ingrid Zavarezzi e Vitor de Oliveira. Ganhei de presente uma personagem incrível! Estou super feliz! Irei gravar de maneira remota aqui na Nova Zelândia, sob a direção do Ajax Camacho e sua turma de talentos.”

Como a fotografia entrou em sua vida? Para você foi natural esta transição de carreira ou desafiante?

“Meu pai sempre gostou de fotografia. As fotos da minha infância são as tiradas pelo meu pai. Até concurso ele ganhou com uma foto que fez com a minha irmã. Apesar de advogado, a arte sempre esteve no rotina dele, seja com a música, fotografia ou cinema.

Fotografia é bem presente na vida do ator. Ator precisa de foto para poder vender sua imagem, pra publicar sua peça, pra divulgar sua arte. E eu como atriz participei de algumas campanhas como modelo de produto.

Estive em contato também com grandes fotógrafos que trabalham com fotografia jornalística. Foi quando me vi fascinada pela fotografia documental. Hoje tenho um olhar mais documental de fotografia. Aliás, essa semana ganhei meu primeiro prêmio como fotógrafa documental pelo Inspirations Photographers. Baita orgulho!”

Primeira foto premiada da Julia Sabugosa “Inspirations Photographers”. Foto arquivo pessoal.

“Mas, voltando 4 anos no tempo: a fotografia entrou de vez na minha vida quando engravidei da minha filha. Queria documentar todas as fases da vida dela. Queria que ela tivesse fotos bacanas pra ela voltar no tempo e revisitar os momentos vividos.”

“A fotografia tem esse poder. É como uma máquina do tempo digitalizada. Foto de filho é como amor encapsulado”.Julia Sabugosa

 

Estados Unidos

“Então, na época morando nos EUA, comecei a estudar fotografia. Me apaixonei perdidamente e virei a fanática por estudar a arte. Fiz cursos presenciais e online com craques como Anne Leibovitz, Greg Williams e Renato Depaula. E sempre que vou ao Brasil faço algum dos cursos do fantástico Ramadinha, do Fotografia Contemporanea, no Rio de Janeiro.”

 

Julia Sabugosa nos EUA. Foto de Timothy Devine.

“Hoje, depois de tantos cursos on-line, não só de fotografia como temas mais que variados, passei a ter um olhar mais afiado para perceber o que falta para que alguns experts tenham clareza e segurança na comunicação.

Passei então a orientar amigos que embarcaram no on-line e, de repente, não mais que de repente, comecei a dar consultoria para experts.

Tem sido uma experiência muito boa pra mim, porque aplico ferramentas que aprendi na tv e teatro, na direção de cena enquanto diretora na Visconde Produções, e com o conhecimento na fotografia, ajudo com a direção de luz e enquadramento de cena. Virou um pacotão das minhas aptidões. Tô adorando!”

Recomeçar sempre que o coração mandar

“Não considero que tenha transitado para uma nova carreira, e sim adicionado mais uma `a minha vida. Até o início do século XX, a expectativa de vida era em torno dos trinta e poucos anos. Hoje temos centenários vencendo a batalha contra o Covid.

“Temos vivido tempo suficiente para experimentar mais nossas aptidões e de recomeçar sempre que nosso coração mandar.” Julia 

Quais seriam os desafios do profissional de fotografia?

“O fotógrafo, normalmente, inicia a carreira em vôo solo. Isso demanda tremendamente, porque não é só durante uma sessão de fotos que o fotógrafo investe tempo. Fotógrafo precisa saber se promover também. Nessa parte uso muito o que aprendi nos tempo mais ativos como atriz.

Fotógrafo precisa saber comandar a câmera (claro!), dirigir o subject – quando este se trata de humanos ou pets; precisa saber de marketing digital para promover sua marca (quem não investe na internet como meio de divulgação, certamente não se manterá ativo no mercado), saber usar as ferramentas pra edição de imagem, saber fazer parcerias (essencial para o crescimento!), e principalmente, saber ter paciência.

Nenhum sonho grande se alcança com pouco tempo investido. Se quer algo consistente, é primordial que saiba que precisa investir tanto quanto precisa ter paciência. A lei de causa e efeito se aplica bonito nessa hora.”

O mercado da fotografia na Nova Zelândia

“Quanto ao mercado de fotografia aqui na Nova Zelândia.. entendi que o tempo é mais que aliado nessa hora.

Nessa terra de gente gente-boa, 70% dos trabalhos, seja na área que for, são conquistados no boca-a-boca.

Portanto, você precisa investir tempo pra conhecer pessoas, criar seu network, mostrar seu trabalho, fazer seu nome, aí sim, fotografar. Claro que pra toda regra há exceção, e é nela que tenho me apegado, afinal só estou aqui há dois anos!” (risos)

A experiência fora do Brasil

“Com 25 anos fui morar com minha mãe e meu irmão em Portugal. Era pra ser dois meses e acabei ficando quase um ano. Na época voltei pro Brasil já pronta pra voltar a viajar pra fora novamente. Desde aquele dia, nunca mais deixei meu passaporte vencer. Já teve época em que tive passaporte sem carimbo algum. Só a espera de alguma oportunidade de lançar vôos por aí.

Cobertura pro Vivo Fashion Rio, Julia Sabugosa entrevistando Monica Martelli.

Até que, aos 36 anos de idade, já com carreira mais sólida na atuação, com peça em cartaz, série de tv no ar (Alucinadas, era o nome da série. Com as maravilhosas Renata Castro Barbosa e Luciana Fregolente, com direção dos geniais Victor Garcia Peralta e Rodrigo Vanderput), e com minha empresa Visconde Produções indo muito bem das pernas obrigada, resolvi comprar passagem pra passar dois meses nos EUA estudando inglês.

Me lembro que fui tirar o visto americano já com a passagem comprada. Estava determinada.

Parceiro de vida

“No dia depois que peguei o visto americano, 3 meses antes de embarcar para os EUA, conheço quem hoje sou casada. Um dos meus maiores incentivadores profissionais, Patrick. Na época em que nos conhecemos, Patrick já morava na Austrália há seis anos, onde fez seu PHD em economia, e estava de férias no Rio, nossa cidade natal.

Foi quando nos esbarramos no Baixo Gávea, um bar bem conhecido dos cariocas. Era a última semana dele depois de dois meses de férias no Brasil. Ficamos juntos e acabamos nos apaixonando perdidamente. Foi uma semana tão intensa, que me fez comprar uma extensão da passagem, que me levaria pra Nova Iorque, para então Sydney, na Austrália. Então, ao invés de estudar inglês nos EUA, fui estudar na Austrália.”

Austrália e EUA

‘Ficamos um ano e seis meses na Austrália. Eu era MUITO feliz naquela terra! Adorava! Me sentia livre, viva, ativa. Até que Patrick recebeu uma oferta para um emprego em um escritório de economia na capital dos EUA. Seria interessante explorar uma nova cultura, e além de ficar infinitamente mais próximo, e mais barato, do Brasil. Sentia muita falta da minha família e amigos. E lá fomos nós, de mala e cuia para Washington DC.

Já na primeira semana de EUA recebi o resultado da tão esperada gravidez. Foi quando comecei a estudar fotografia, e abri a minha primeira marca de fotografia, chamada ClicKids.

Moramos nos EUA por dois anos e meio. Amei e odiei morar nos EUA.

“Cheguei na era Obama e sai na era Trump. Aprendi tremendamente com as dores e amores feitos por lá. Fiz ótimos amigos por lá. Mas, em algum momento eu e meu marido sentimos a necessidade de uma estabilidade emocional.”Diz Julia

Nossa condição como imigrantes não era tão tranquila, já que dependíamos do sponsor do marido e de uma renovação constante de visto. E como meu marido e a nossa filha já tinham a cidadania Australiana, e eu a residência, decidimos voltar para a Austrália.

Miramos na Austrália e acertamos na Nova Zelândia. Patrick conseguiu um emprego na primeira semana de tentativa. Mais uma vez, doamos e vendemos os nossos móveis, encaixotamos o que pudemos, e viemos para Nova Zelândia em Fevereiro de 2019. Era a quarta vez que nos mudávamos em três anos de vida juntos.”

Como é viver na Nova Zelândia

“Nova Zelândia surgiu na nossa vida sem que a escolhêssemos, digamos. Eu nunca tinha lido muito sobre o país, apesar de já achá-lo deslumbrantemente lindo. Mas, hoje admiro muito essa terra bonita de gente legal. O clima não é o ideal, e o mercado de trabalho é bem pequeno, mas a cultura de cidade pequena, hoje sendo mãe, me atrai. Claro, sinto falta da agitação cultural.

Aqui, por mais que seja o centro cultural desse país, em nada se compara ao Rio e, principalmente São Paulo.

Amava a rotina de peças e shows semanais. Mas, tô feliz com minha rotina de dormir cedo, cuidar da minha família, meu grupo amado de amigas e amigos, meu estúdio, clientes, e ter a segurança de voltar pra casa sem preocupações com segurança. Não falemos de terremotos, que tá tudo bem! (risos)”

Hoje, o que você considera ser sua paixão?

“Minha filha Liz, a família que formei, fotografar (sinto a minha alma viva de novo!), ARTE, e estar com meus amigos.”

Patrick, Liz e eu, assim que chegamos na Nova Zelândia (Fev/2019). Foto de Matthew O’Connell.

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