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Desigualdade salarial é de 9.5% em 2021

The Global Gender Gap Report aponta que ainda vai levar 257 anos para nivelar a participação econômica entre homens e mulheres

Em 2020 o Ministério para a Mulher e o Departamento de Estatística na Nova Zelândia, atualizaram um levantamento que aponta a desigualdade salarial entre homens e mulheres no país. Em 2020 a diferença foi de 9.5%, mantendo a estagnação na última década. No primeiro ano em que o estudo foi feito, em 1998, a diferença salarial era  de 16.2%.

desigualdade salarial

Crises internacionais aumentam a desigualdade salarial

Embora nenhum levantamento faça uma relação direta do mercado de trabalho da mulher com o cenário econômico mundial, o gráfico acima mostra que nos últimos anos, os picos de desigualdade salarial aconteceram em períodos de crise internacional, que consequentemente afetam o mercado doméstico.

Em 2004, por exemplo, o The Reserve Bank precisou usar reservas internas para conter o câmbio internacional desordenado, causando impactos na política econômica da Nova Zelândia, incluindo aumento da inflação. No ano seguinte, 2005, houve um pico na diferença salarial entre homens e mulheres, chegando a 14%. 

Grande desigualdade por indústria

Entre junho de 2018 e junho de 2019 a média salarial para mulheres teve um aumento de $0.75 por hora (3.2%), enquanto a média salarial para homens subiu $0.85 por hora (3.3%). Setores como o Administrativo, finanças e seguros seguem liderando o percentual de desigualdade, mas não há nenhum setor em que as mulheres têm salários mais altos. 

desigualdade salarial por industria

A exploração do mercado feminino por parte do patriarcado

Grande parte do problema está intrínseco ao sistema em que vivemos atualmente e que permite que o empregador decida o valor do trabalho das pessoas da forma como bem entender. Além isso, outro lado do problema é estruturado no universo patriarcal que colocou as mulheres como coadjuvantes na história da humanidade. E isso não é apenas a minha opinião, não. 

Parte do problema, de acordo com o estudo feito pelo Ministério da Mulher, está relacionado ao que eles nomeiam como desvantagens educacionais, preferência por homens em determinados cargos, a maior probabilidade de a mulher escolher trabalhar meio período e a necessidade de mulheres passarem mais tempo exercendo funções não remuneradas, como o trabalho doméstico e cuidado dos filhos, mas isso só explica 20% do problema, de acordo com o estudo. 

Os outros 80% são ditos como “motivos inexplicáveis”, que nada mais é do que um jeito polido de dizer que o sistema machista ainda impera no mundo corporativo e subjuga a força de trabalho feminina. Demorou muitos anos para avançarmos enquanto categoria e sermos vistas como um indivíduos igualmente capazes aos homens dentro do mercado de trabalho, e apesar de hoje termos conquistado o direito ao trabalho, ainda estamos longe de conquistar a igualdade no tratamento e nas oportunidades. 

Ações governamentais e perspectiva futura

Image by Squirrel_photos from Pixabay

O plano da Nova Zelândia já está em andamento e conta com uma atualização da legislação vigente para facilitar que as mulheres possam negociar junto aos empregadores com mais facilidade, ao invés de precisarem entrar com processos judiciais contra a  desigualdade salarial.

A primeira parte da ação do governo conta com a colaboração de 34 instituições do setor público, que ficaram responsáveis por traçar estratégias dentro de cada setor para garantir a aplicabilidade do plano nacional. Por outro lado eu senti falta de empresas privadas nesse plano e, embora a mudança em instituições públicas seja um bom avanço, o empresariado precisa urgentemente ser envolvido nesse processo de forma mais eficaz, caso contrário os empregadores dificilmente vão optar por equiparação salarial, já que isso impactaria diretamente o caixa da empresa.

O impacto da desigualdade na decisão familiar

É compreensivo que uma família opte por manter a mãe em casa para cuidar dos filhos, uma vez que o salário dela é mais baixo do que o do marido, a questão é que o salário dela é justamente mais baixo porque historicamente a mulher vem sendo colocada no papel de dona de casa. Um baita ciclo vicioso e para romper com isso vai ser necessário muito mais do que mudanças na lei. É preciso mudar a forma como o sistema entende o papel da mulher, seja ela mãe ou não.

A mulher não pode ganhar menos com a justificativa de que, em algum momento, ela vai sair de licença maternidade, por exemplo. Se o auxílio paternidade fosse maior e desse mais suporte aos pais para que eles ficassem em casa, a situação fosse bem diferente, mas aí a gente já entraria em outra questão de gênero que envolve a remodelação de como o próprio homem se vê em relação às tarefas de casa e, convenhamos, essa discussão merece um texto à parte.  

Se posicionar contra a desigualdade não é fácil

Reprodução: Time’s Up website

Em grandes corporações, como as hollywoodianas, é comum que o valor salarial de artistas e diretores seja divulgado e comparado. São sempre valores astronômicos, bem fora da realidade de um cidadão comum, e por ganharem espaço na mídia, ganham também a facilidade de lutar por igualdade.

Apesar de movimentos como Time’s up por exemplo, serem super importantes para todas as mulheres, nesse cenário midiático e televisivo  é, inclusive, muito mais fácil de se posicionar contra a diferença salarial. Mas e o restante do mundo? 

No universo dos mortais, com salários mínimos e que mal pagam as contas, não é comum que se saiba ao certo quanto ganham nossos colegas de trabalho. É até estranho se alguém te pergunta isso e, independentemente da resposta, o desconforto é certo. Essas pessoas nunca ganham igual, embora executem a mesma função.

A conscientização sobre o problema é ainda a melhor arma que temos, porque é através do conhecimento, tanto das dificuldades, quanto dos direitos, que a gente pode abrir caminhos para avançar. E ainda temos um caminho bem longo pela frente.

Muito longe da igualdade

Um estudo feito pelo The Global Gender Gap Report em 2020, apontou que ainda deve levar mais 257 anos para que a desigualdade salarial entre homens e mulheres seja nivelada na participação econômica, visto que as ações para garantir essa equidade avançam de forma muito devagar na sociedade. A projeção é de 257 anos. Vocês tem noção de que nem suas netas vão vivenciar um mundo com igualdade de gênero no mercado de trabalho? Essa é a nossa realidade. 

 

 

Flávia Bonturi Previato

Mulher, mãe, jornalista e educadora.

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